terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Ela precisava mesmo era de um amor. Um amor que fosse puro, e que largasse tudo. Largasse tudo pelo menos por uma noite, para lhe dar compania. Ela precisava mesmo era de um eu te amo. Um eu te amo que não fosse de criança, que sai como sopro. Que não fosse de um avô ou avó, que soa com vasta delicadeza. Não de parente, não de amigo, que sai por assim sair. Precisava mesmo de um eu te amo no ouvido, que lhe arrepiasse a penugem da nuca. Ela precisava mesmo era de um abraço apertado. De alguem cheio de paz. Precisava de um abraço que a sufocasse. Precisava se ligar com alguem, por uma eternidade, em braços entrelaçados. Precisava mesmo era de um cafuné. De brisa leve no cabelo. Precisava de alguem. De alguem que ja fora escolhido, mas que nao tinha.
Precisava mesmo, era de um amor. Mas daqueles que pulassem na cama de manha cedinho antes mesmo do sol dizer bom dia. Daqueles pra dizer: é, eu te amo mesmo, e acho engraçado esse meu amar. Precisava mesmo era de uma compania, que nao fosse a chuva toda que caia la fora, que nao fosse os livros espalhados em caixas. que nao fosse um cachorro roubando seu lugar na cama. Sem cafés, sem perfumes , sem espelhos. Ela precisava mesmo era de um amor. Nu e cru. Queria mesmo era sentir as marcas do corpo, que o proprio corpo ousa em fazer. Queria mesmo era sentir a respiração do outro alguem em si. Queria mesmo era pegar para si. Na verdade, ela preciisava mesmo era doar amor. Era amor demaais. Vivia de amor, morria de amor, feita de amor. Tropeçava em amores quando andava. Respirava amor. Guardava-os em potinhos, para destribuir. mas era um montante enorme. Eu te amo aqui, eu te amo acolá. Ela precisava mesmo era de alguem. De alguem que suportasse todo o seu amor, e que a entendesse. Entendesse que ela queria mesmo, era tirar todo esse amor do corpo, e passar pro Papa, pro Presidente, pra eles e elas. Precisava de alguem que quisesse tanto amor assim. Ela precisava mesmo, era de um alguem. Ela precisava era de um alguem pra chamar de amor. Precisava mesmo, de um desamor.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A estupidez alheia me faz pensar em diversas coisas que eu poderia possuir. Não, não me refiro a textos novos, muito menos a poemas liricos. Poema seria, se eu tomasse um vinho caro, fumasse um charuto do qual o nome, nem sei pronunciar, e mesmo se pronuncia-lo eu soubesse, nao faria, por respeito a marca. Poema seria, se eu estivesse no morro mais alto, do mais alto monte. Se poema não for, com certeza, conto de fadas seria.
Creio que seja uma crônica feita num papel de pão. Daqueles que ja passaram por mãos de famintos e desgrenhados, largados na rua. Reciclado.
Transborda em uma sopa de tomate, de uma vermelhidão falha, que não me permite comparar tal, com textos biblicos, ou com o batom forte da boca, daquela mulher que avistei hoje.
Embassa vistas com a fumaça quente e acinzentada de um cigarro de 0,25 a unidade. Passou por mãos de quem nem sei. Foi pra boca com prazer. Queimou a garganta assim como as palavras que sairiam nesta noite.
Cronica não. Desisti. É uma historia, que só nao é historia escrita porque me faltam articifios comunicativos e gloriosos. É simplorio, e não possui nem Era uma vez. Conto de Fadas por hoje me bastaram os que li, e que fique claro, que não gostei. De nenhum deles. Conto como se este fosse memória. Memória que não esta na minha cabeça. Deve ter imaginado na de alguem. Me desculpe, leitor, se este conto estava na sua cabeça. Roubei por segundos, mas não me incomodo com direitos autorais. Pegue-o pra si, assim que concluida a leitura.

-

Pudera eu ter uma choupana com meus tantos momentos de solidão. Dispesaria tal, pela imensidão do verde. Da grama que acaria meu tornozelo por debaixo das muitas camadas do vestido. Pudera eu ter uma carroça caindo aos pedaços mas que andasse, ainda que com dificuldade. Aprenderia sozinha a andar, sem medo de acidentes, e se parasse este, de andar, empurraria. Andar de bicicleta é assim. Porque não transforma-la em caroça?
Pudera eu ter um qualquer a cavalgar. Poderia me pedir um café gelado ao bater a porta velha da choupana. Poderia me levar para novos gramados. Poderia conduzir a caroça. Poderia.

Não poderia nada. Minha sopa esfriou. Meu café não tomei. Parei de fumar. E parei de sonhar. Mas, pudera eu. Voltar a tudo, e achar o alguem a cavalgar. Não me importaria de servir um café e admirar sua boca a bebe-lo.

Porque contos, de fato são assim. Mudam de boca pra boca. Peço para que, se muda-lo, não retire a parte do qualquer a cavalgar. Mesmo sem ser um conto de fadas, permite que a magia toda esteja no gosto adocicado da cafeina, e na forma com que o cavaleiro observava por olhos baixos, o balançar dos cabelos negros da menina.

sábado, 3 de outubro de 2009

Nunca esperei muito de aniversários.
Mesmo quando festejava vestida de alguma princesa da disney.
Mesmo quando alugava piscina de bolinhas e pula pula.
Nunca esperei mais do que abraços, beijos, e desejos engraçados.
Nunca esperei muito. Ja me basta um bolo. Com uma vela.
Nem brigadeiro, nem beijinho, a nao ser beijos sinceros.
Mas, embora nunca tenha esperado muito, sempre passei aniversários com alguem.
Alguem que eu quisesse muito. Alguem unico. Familiar, amigo, amizade colorida,
amor platonico, ou namorado. Mas sempre com alguem.
Esperei demais dessa vez. Desejei algo diferente, propostas diferentes,
uma comemoração diferente, e abraços de pessoas diferentes.
Nunca peço presentes, e nem os almejo. Mas ganho.
Hoje foi diferente. Diferente de todos os outros.
Ganhei um cappuccino. E um objeto achado.
E ganhei feliz aniversarios alheios, que conto nos dedos, quase que de uma mão.
Ganhei carnes mortas para estudar. Acidentes de carro para analisar.
Uma comida dura para mastigar, e uma bebida alcoolica que nao tomei.

De certo, passar o aniversário sozinha, é complicado.
Queria mesmo era uma surpresa. E isso não serve.
Ja era de se imaginar.

Queria mesmo era dormir. Comemorar os 18 fazendo coisas de 8.
Tomar um sorvete. Brincar de mangueira. Com alguem. Qualquer um.
Queria mesmo, era estar em qualquer lugar.

É, eu tenho dezoito.
E o tempo la fora, mudou mais uma vez.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

(continuação24/09)

Acordou com peso na consciencia.
Seu dia anterior se resumiu a uma foda mal dada.
Abriu sua cerveja e largou os óculos sob a mesa.
Folheou todos os papéis que estavam no chão.
Achou cinco contas não pagas.
Continuou a beber. Estava quente. O tempo, e a lata.
Deu pro cão na calçada. Não importava a temperatura.
Estava sedento, e magro. Tão magro como a ultima com quem ele esteve.
Olhou pela porta caindo aos pedaços. 9 da manhã.
Dormiu por todos. E por ele mesmo.
Pela mulher que largou na cama, fumando um cigarro.
Desta vez não foi ele que o fumou. Levantou-se e saiu.
" Ja tive melhores. Pode ir. "
Pela primeira vez sentiu-se usado.
Adoraria se sentir usado, e sentiu.
Nao adorou o novo. Ja tinha se acostumado em usar.
4 da tarde. Via um jogo qualquer na tv do bar.
Quinta dose de whisky. Nenhum gesto nem olhar.
Muitas mulheres. Nenhuma vontade. Nada.
Pensou em sair desta vida.
8 da noite, hotel malacabado.
Não soube ao certo de onde ela veio, onde começou, onde iria parar.
Começo e fim são dificeis. Alta, branca, pele macia, mãos delicadas.
Se sentiu como se não soubesse fazer mais nada.
Ela o dominava e o detinha como aprendiz.
Aprendia nos inumeros movimentos.
Pela penumbra viu que seu corpo tinha um formato instigante. Queria.
Se perdeu em tantas curvas, e nem se lembra de seu rosto.
Não soube ao certo a cor de seu cabelo. No fim se conteve com o negro.
Negro como petroleo. Como noite.
Liso, enorme, fios e fios. Passavam por entre seus dedos como navalha.
- Conheço você.
Achou que era boa demais pra despejar juras de amor, mas parecia que era isso que aconteceria
nos ultimos 10 minutos.
- Conheço de Lisboa.
Sorriu desentendido. Lisboa o rendeu muitos contos. Mas um em especial.
Guardou como segredo. Número 165. Negro véu.
- Não te lembras?
Lembrava. E muito. Mas decidiu sair. Se vestiu rapidamente, como se fosse perseguido
por um crime. E de certo foi. 165, negros.
Parou e a olhou mais uma vez.
Ela retribuiu. Nua, mas comportada.
- Eu sei de ti. Amanhã as 8. No mesmo bar. O mesmo jogo.
Comeu sua mente em 2 segundos.
Ele nada falou. Saiu.
3 horas da manhã. Resolveu no mesmo instante fazer o livro.
Livro de contos. Contos negros. Que começariam pelo 165.

(continua)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Ele escrevia romances sem começo nem fim.
Sem vive-los.
Mas não ligava. Escrevia bem e isso que importava.
Sempre foi um tanto mulherengo. Mulherengo contido.
Pegava e fazia no escuro. Nunca foi de claridade.
Gostava mesmo de mulher, daquelas que são mulheres em si, e não projetos.
Não encaixava nas carecas, tão pouco nas magrelas, mas independente da cor,
comia. Ruivas, morenas e loiras. Celulites e gordurinhas.
Escrevia romances sem começo.
Começo é muito dificil. E sendo mulherengo, partia logo era pros finalmentes.
Olhava, beijava e transava. Não ligava depois. O fim também é complicado.
Se contentava com um cigarro e um banho.
Sem palavras, saia do quarto de hotel. Batia a porta inumeras vezes, só pra acordar sua
diversão e ouvir " Mas pensei que tomaria café na cama, que me juraria amor, meu amor. "
Adoraria se sentir usado, mas na verdade ele que usava. E abusava. Muito e a noite toda.
Escrevia bem, bem até demais, cada romance, cada hotel, e cada mulher.
Ah, amava as mulheres. As tratava como seda. Mas se quissesem, como cachorras.
E muitas delas queriam. Era um mulherengo cafajeste. Mas fazia direito.
Levava-as ao apice de todas as coisas, carnal e amante.
Mas não os vivia, apenas compartilhava. Compartilhava romances e jogava-os fora.
Logo cedo já se perdia nas ruas. Logo depois trancava-se no quarto.
Um quarto residencial. Seu quarto. Sua caneta de pena. Sua cerveja matinal. Seu pão vencido.
Papeis e bitucas ao chão. Eram muitos projetos, e muitas falas.
Ele nada dizia. Elas jorravam palavras de amor.
Ele ate se perdia. Juras de amor toda a noite.
Sentia-se amado, mas não retribuia.
Não passava uma noite sem um bar. Sem um drink.
Incrivel que não falava uma só palavra durante a noite e a madrugada.
Jogo de gestos, olhares e movimentos constantes.
Vai e vem vibrante.
Escrevia bem. Bem ate demais.
E rapido. Gostava de se arrumar. Se lento fosse , tempo não sobraria.
Gostava. De sair cheirando pecado. Em uma dessas pegou até o gari. E o porteiro algumas vezes. Começou a temer pelos olhares e bilhetes que encontava quando passava
pela varanda.
Mas gostava mesmo é de mulher.
Detalhava suas formas vendo pelo espelho no teto.
Como qualquer livro anatomico. Desenhava formas.
Mas desenho nunca foi seu forte. Gostava mesmo de letras.
Escrevia tão bem. Que resolveu fazer um livro.

(continua)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

fiquei impressionada com minha falta de horarios matinais.
acordei na hora de sair, e sai na hora de chegar.
puta que pariu.
não tinha uma bebida, um energetico, um cafe.
estomago vazio desde as 20:00 hras do domingo.
minha segunda foi seguida de puta que pariu.
pelo menos o meu domingo foi belíssimo.
não pelo tempo, nem por mim. estava ridicula, aparentemente fracassada. moída.
mas minhas companias foram fieis a beleza que eu precisava ver.
mesmo assim, a manhã de segunda estava sendo uma correria, diferentemente do transito na anchieta.
ao mesmo tempo que são paulo sabe ser uma cidade bonita,
ela sabe ser estressante.
parei na hora de andar, mas andei um tanto rapido e cheguei no horario.
subi, me perdi. são muitos olhares, muitos cigarros e muito gente que te come vivo.
pela sua roupa, pelo seu corpo, pela sua cara de
" não moro aqui "
pelo seu medo de ser novo.
uma porcaria enfiada no luxo. não tão luxuoso assim, mas arrumadinho.
uma porcaria com muito dinheiro.
uma porcaria não. várias, mais da metade.
parei pra pensar se era aquilo mesmo que eu queria pra mim.
me disseram tanto pra eu ficar com jornalismo, com letras. se bem que letras no sentido justo, estão me faltando até demais.
inclusive o tempo, mesmo que seja visto por numerais. e esse eu vejo de monte. assim como toda a miudeza corporal.

estou correndo na hora de dormir, dormindo na hora de fazer alguma coisa. estou fora do percurso.

perguntaram se sempre foi um sonho, disse que não. letras é um sonho. tambem. assim como independencia, carros, tatuagens, frances, e tudo de mais infitnito.
o engraçado é que a profissional dormada em letras que me dirigiu a pergunta, e minha resposta soou como um clichê. um puxa-saquismo. ou uma loucura solta na area da saude.
no meio de um mundo de fórmulas quimicas e compostos orgânicos, eu tenho muitos sonhos. e minha mente trabalha bem até, não nego. suporto todos eles de uma vez só. assim como uma grade curricular enorme mergulhada em disciplinas exatas e biólogicas.

e se me perguntarem se é isso mesmo, digo que sim. estou de branco. sirvo a saúde e escrevo um romance. que mal há?

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Outono. Berlin. E ela sentou.
Sentou e me pareceu cansada.
Alimentou pombos como se jogasse moedas na fonte da vida.
Ou como se desse esmola ao mendigo sujo na calçada larga.
Alta, morena, calma e distante.
Diferente e espontâneo o modo como seu cabelo parecia flutuar quando o vento passava.
Estava frio. E ela, de óculos.
Óculos retrô, lente clara.
Amarelo. Marrom claro. Ou o que quer que seja.
Beje pra ser preciso. Uma mistura finda de cores de tons parecidos.
Via seus olhos pela lente. Atordoados. Diferente de toda sua postura naquele banco.
Tinha tudo por inteira.
Discreta feito um agente mal pago querendo uma promoção.
Linda feito orvalho sobre folhas verdes.
Branca. Fria ao tocar seu rosto.
Eu não tinha nada. A não ser uma camera velha. Retratando a cegueira.
- Tiro uma foto. Te peço. E nada mais.
Olhou-me e não disse nada. Sorriu calada.
Parecia que seus dentes gostavam de ficar na boca.
Estava mais quente lá dentro do que aqui fora.
- Meu nome é Samuel.
- E eu deveria?
- Dizer seu nome? Fico grato se fizer tal.
- Não. Tirar a foto.
- Parece não ter mais o que fazer hoje.
- Aceito um café.
- Está frio. Você e os pombos creio.
- Eu e eu.
- Vem comigo. Te levo. Tens cara de frio.
- Manuela.
- Como?
- Me leva. Está frio.
Levou tudo de mim. Meus desejos e medos.
Não falou nada. Tomou o café e ficou a me olhar,
Pra mim já bastava. Foram duas horas de ausencia.
Ausencia de voz, de alma. Mas pra mim, era o bastante.
- É a foto mais bonita, de todo o outono.
- Está tarde. Eu vou.
- Nunca fala nada sobre o que eu digo.
- Pra mim é inverno.
- Haha, eu acho engraçado. Responde depois de muito.
- Não falo porque não sabe nada de mim.
- Por isso, quero saber. Saber tudo.
- O que é que vê? Em mim? De mim?
- Um óculos retrô. Em frente aos mais belos olhos.
- Cansados. Eu vou.
- Te levo.
- Agradeço o calor que me deu, em um copo de café.
- Vem, te levo.
- Nem sabe pra onde vou.
- Te levo onde for. Agora.
Andei por becos e ruas escuras.
Não sabia nada sobre ela.
Manuela, alta, boca calorosa, olhos cansados.
Roupas de brechó, rosto sensível.
Cabelos longos, negros e macios.
Branca feito neve. Migalhas de pão, e um óculos retrô.
Era tudo o que via. E não via nada.
- Pode ir. É demais pra você.
- Demais o que?
- O entardecer. A lua. O hotel barato. Uma andarilha.
- Não pode saber. Não sabe de mim.
- Samuel, Vinte e três anos. Natural de Berlin.
Tira fotos na manhã, se estende pela tarde procurando
alguma coisa realmente bonita, que na verdade não existe.
Não gosta da noite. Perde a paisagem que mais brilha.
Mora sozinho, em um apartamento de luxo. Roupas sociais.
Tenis informal. É rico demais. Pra uma andarilha de óculos retrô.
Repara mais em meus óculos. Não pediu para eu tirar.
Não quer saber de minha alma.
- Como sabe? De tanto? Naturalidade? Tudo?
- Foi ao banheiro e deixou a carteira. Vi seus documentos.
E vi o dinheiro. Deixou na mesa com alguem que mal conhece.
É sinal de que não se importa com perdas.
- Não quero perder o dia. Nem você.
- Perdeu o bonito de tudo isso. A lua.
Me mostra então o que há de bonito na sua noite.
Sua andarilha. Me mostra seu hotel barato.

Fui no buteco da esquina. Ela me pediu bebidas com nomes estranhos.
Cigarros e uma carreira.
Soube de uma parte da sua carne.
Não fumou do meu lado. Nem quis abrir sua bolsa, como fez com a minha carteira.
Subi. Era sujo. Caia aos pedaços. Chão perfurado e com lembranças prostibulas.
Teias de aranha. Suor. Escuridão.
Tudo quebrado. Hotel barato.
E eu, com algumas bebidas e vicios antigos.
parei em frente a porta e tive receio de abri-la.
Primeiro porque não tinha maçaneta. Era um trinco sujo de outras mãos.
Segundo porque não sabia o que esperar daqueles oculos.
Terceiro.
Não pensei e abri. Com um chute. Mas abri.
Chute sem maldade. E com medo. A porta estava pra cair.
- Da pra mim?
- Como?
- Os cigarros. para de ser assim.
- Assim como?
- Timido. COm meios pensamentos.
- Só não entendi.
- Entendeu. Da pra mim. Os cigarros.
Não tem como entender outra coisa.
Se o resto sou eu que dou, e não você.

Descobri que era desbocada.
E falava pra despertar desejos.
Despertou todos enquanto usou sua carreira.
Despertou o mais forte de todos quando me pediu fogo.
Fodeu com tudo quando disse:
- Deita. A cama tá limpa pelo menos.
- Não fode.
- Com o que? E porque não?
- Não fala. Deita comigo.
- Agora não. Não sou disso.
- Disso o que?
- Disso. Não me disse nada de tão estimulante assim.
- É a minha melhor foto. E minha. De todo o resto mas minha.
É perfeita em todos os sentidos. Sujos ou não.
- Não me basta.
- Vem cá.
Veio pra mim, sussurou no meu ouvido.
- Eu quero você. Desconhecido.
Não queria mais nada. Sò ela. Em mim.
- Tira o óculos. Vem ca. Quero te ver, sei la quem for.
Parece que assim, bastou.
Tirou. Assim como toda a roupa.
A minha. A dela. Tudo.
Esquecemos do frio. Da cama quebrada. Das bebidas no fim.
Do cigarro mal apagado.
Deu pra mim. De tudo o que tinha.
Vi seus movimentos na parede mal pintada.
Um vai e vem incessante. Um respirar fundo.
E naquela penumbra toda. Fazia da silhueta, um brinquedo pra criança.
Puxou me pelos cabelos, beijou toda superficie fria que eu dei.
- Da pra mim?
- o que ?
- Você.
- Da pra mim?
- O que?
- Tudo.
feito. feito adolescente.
Feito experiente.
Fez de mim, objeto de desejo.
Me colocou nos lugares mais improváveis.
Tudo pela penumbra.
Fez e aconteceu. Chamou-me por meu.
- Meu desconhecido.
- Eu acho que te amo, Manuela.
- Conheceu-me hoje.
- Não conheci. Não sei nada sobre você. é mais forte que o conhecer.
- Então é desejo.
- Saciou meu desejo. É mais. Paixão. Meu amor.
Ela se levantou. Resolveu-se por um banho gelado.
Saiam do chuveiro por si só. gotas quentes. Por um milagre.
Chegavam em seu corpo, frias como o tempo.
E como a alma.
Me vesti. E ela não fez questão de colocar-me roupas, como
as tirou, com tanta rapidez.
- Eu sei seu nome, Manuela.
- Eu sei tudo de ti, Marcos.
- Samuel.
- Samuel, Marcos, Manuel, Monica, Beatriz.
Que diferença faz? São nomes. palavras demais não me bastam.
- Vem cá.
- Não. Não te amo. Amo essas paredes, um chuveiro quebrado, uma roupa amassada.
Cheio de prazer. Sexo. Desejo.
E assim foi, derrubou em mim palavras sujas. Tudo de mais sujo que ela amava.
Vicios. Por todas as noites.
Tudo de mais morto. Me completava. COmpletava minha pureza. Meu branco, meu limpo.
Tudo de vivo em mim.
Foi tão intensa. Só me lembrava de vais e vens.
Corpo nu, silhueta repleta de curvas prazerosas.
- Vem cá.
- Perdi meus óculos.
- Vem cá. Está roxa. Tá frio. Vem cá. Te faço minha.
- De novo?
- Deixe-me te olhar de perto.
Eu estava com seus oculos guardados, todo o tempo. Desde a hora que os tirei.
Desde quando ela se despiu.
Queria olhar sua alma por inteiro.
Queria conhece-la. Casar-me. Ter filhos. Morar ali. No beco.
No hotel barato.
Começou a me despir novamente.
Gélida, feito o pouco da paisagem que nos restava.
- O que foi?
- cansou-se de mim? Tranformo-me em Monica ou Beatriz.
- Não, prefiro a Manuela.
- E o que tem de tão querer na tal Manuela?
Não respondi. Sorri, com poucos dentes. Puxei seus cabelos.
E ela se doou pra mim. Novamente.
Foi-se um outono, um inverno. E uma Manuela.
Agora Monica. Cabelos loiros. Desgrenhados.
Mas o mesmo hotel barato. E a mesma silhueta.
Engraçado como eu via todos seus pecados pela lente de um óculos retrô.
Era minha. Era seu. Seu desconhecido.